| A Diferença Entre
Disciplina e Limite
HAMILTON WERNECK
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Alguns pensam que se trata, apenas, de uma questão
semântica. De fato, não é.
Enquanto disciplina é imposta de fora
para dentro, não é debatida com
os envolvidos e atende muito mais aos interesses
de quem está no controle de uma série
ou turno escolar, o limite é discutido
e estabelecido em função de necessários
valores comuns e se baseia nas questões
que envolvem alteridade. Portanto, o outro,
enquanto parceiro horizontal torna-se mais importante
que o dirigente, não parceiro com características
de mandonismo.
A Psicóloga Tânia Zagury, em seu
livro “Limites sem trauma” da editora
Record define muito bem o que vem a ser limite:
“limite é dizer sim sempre que
possível e dizer não quando necessário”.
Vejamos bem que o sim e o não independem
do que está escrito no “manual”.
A disciplina é baseada em regras claras
e definidas, escritas, em manuais de procedimento.
Os educadores que tomam como base esse processo
burocrático não conseguem ver
diferenças entre uma turma e outra, entre
um aluno e outro e estão ligados a paradigmas
que não evoluem. A disciplina, portanto
é dogmática e se estabelece sobre
pedestais de que uma determinada escola tem
a iluminação suficiente para forjar
cidadãos. Não são, dentro
da disciplina, as pessoas que caminham para
o amadurecimento e para a autonomia, discutindo
à exaustão os seus atos com os
colegas e educadores.
O construtivismo no campo acadêmico tem
seu par no campo comportamental. Enquanto a
disciplina indica, por saber-se sábia,
os caminhos a seguir, o sistema de estabelecimento
de limites permite ao educando construir sua
autonomia. No dia em que não houver educador,
o segundo estará mais preparado para
enfrentar situações adversas que
o primeiro que foi treinado para responder em
situações previstas nos regulamentos.
Alguns entendem que a boa educação
e a boa escola são especialistas em treinar
uma criança a dizer sim às suas
normas e procedimentos. Ledo engano. Uma criança
treinada para dizer sim, quando rolar a droga
na festa não saberá dizer não.
Entender-se-á como “careta”
tanto quanto os adultos que a treinaram.
O treinamento é muito mais fácil
que a educação. Por isso, cachorros
e gatinhos de estimação podem
ser treinados mais facilmente, enquanto crianças,
para escovar os dentes depois das refeições
são educadas através de muitos
anos. Mesmo assim, dentro da mesma casa e com
os mesmos pais existem comportamentos diferentes.
Com os filhos tenho duas experiências
derivadas da mesma orientação.
Um deles era muito agitado e a escovação
nunca foi boa. Portanto, mais cáries
dentárias. O outro, mais calmo, entendeu
por muitos anos a necessidade de escovação
e chegou aos doze anos sem ter tido uma cárie
sequer. Comemoramos, em casa, termos conseguido
um nível sueco de educação
bucal, pelo menos com a metade dos filhos. Quando
este assíduo escovador de dentes chegou
aos treze anos, nós entendemos que estava
preparado e autônomo. Engano grave! Surgem
quatro cáries. Quando perguntado sobre
o porquê das cáries eles respondeu
que diminuiu a escovação para
poder passar pela experiência do motor
do dentista. Realmente o ser humano diz “sim”
se quiser! Em seguida, passada a experiência,
tudo voltou ao normal e assim segue na vida
adulta.
Agora, imaginemos um pouco mais: se o processo
de construção da consciência
da necessidade de escovação teve
esse tropeço, o que não pode acontecer
se uma pessoa é educada por condicionamento
e sem ter experiências de construção
durante a vida, no dia em que se sentir sem
controle de um educador diretivo?
Também em “Limites sem trauma”
(Zagury) há uma citação
complementar à questão dos limites:
“limite é saber conviver com a
frustração e adiar satisfações”.
Tal fato ocorre em nossas vidas mês a
mês. Num dia não podemos fazer
a revisão da moto porque estamos comprando
o material escolar ou, então, deixamos
de fazer uma pintura na casa porque o filho
ou filha foi estudar em outra cidade. Adiamos
satisfação e convivemos com frustrações
todos os meses, semanas e dias de nossas vidas.
Quando os limites são estabelecidos têm-se
em mente exatamente isto que acabamos de expor,
como uma realidade natural da vida para a qual
devemos estar preparados. Com os limites temos
a ordem necessária, com uma diferença
em relação à disciplina:
Enquanto esta é imposta, a outra é
construída no dia-a-dia da escola.
A
poeira levanta atrás da camionete na
estrada Cuiabá Santarém. Ia para
Rurópolis, entroncamento da Transamazônica
para um evento educacional no Estado do Pará.
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