| Por Que o Teatro Causa Medo? HAMILTON WERNECK Quando uma pessoa tem medo de alguma coisa costuma
tomar duas atitudes: ou foge, ou enfrenta. Algumas razões são históricas porque o teatro deixou a arena grega e, na idade média passou a atuar dentro das igrejas. Ocorre que o artista é especialmente criativo e não faltaram momentos de atrito com o clero. O teatro, então, passou para fora da igreja, podendo, as representações, serem feitas ao redor da mesma. Mais tarde com os movimentos de moralização do concílio de Trento, o teatro foi banido de vez das igrejas. Algumas marcas são importantes porque o padre Anchieta, por exemplo, usou-se do teatro para ensinar religião aos indígenas. Aos, poucos, no entanto, essa prática foi deixando de ser apoiada pela escola pombalina, pelas escolas religiosas e pelos governos porque a atividade artística fomentava a liberdade e, a maioria dos governos era defensor do absolutismo. Criou-se, assim, um dos medos: o teatro é contra a ordem constituída e criará problemas. Para evitar os problemas, proíbe-se o teatro. Dentro das escolas isso aconteceu até o final do século XX. O segundo medo está ligado à questão moral: o texto apresentado seria escrito dentro dos paradigmas defendidos pela escola e pela sociedade? Diante desse medo surgiu a censura. O teatro político, por exemplo, foi censurado por todas as ditaduras. A sociedade burguesa que, mais tarde, vai censurar o teatro, teve nos artistas um grande aliado contra o absolutismo monárquico, o que prova que o teatro questiona e pode derrubar regimes. Tudo isso reforça o medo. O terceiro é de ordem psicológica: um ator ou atriz, representando um determinado papel, até que ponto pode assumir para a sua vida pessoal, as características do personagem? E, se o teatro for a oportunidade de fazer aflorar uma personalidade não convencional e não oficial, como lidar com esse problema, imaginemos, criado dentro da escola ou de um clube? Mais uma razão, agora de ordem psicológica, para a proibição. Ela está centrada no medo desse imprevisível psicológico. Os medos são reais e os perigos existem.
Se fôssemos pensar em perigos, não
deveríamos deixar um ser humano nascer.
Se os perigos existem, a fuga não os
resolverá, somente o enfrentamento com
inteligência, será a solução. Primeiro, na escolha do diretor de teatro. Se uma escola ou clube defende determinados valores, o diretor do teatro precisa estar afinado com esses mesmos valores, sobretudo porque os que pertencem a esses grupos, dentro das escolas, podem ser ainda crianças ou adolescentes. Segundo, essa prática, como muitas outras dentro de uma escola, necessitará de algum acompanhamento psicológico. Algumas pessoas, pela situação criada podem passar a conviver com um problema novo, não por culpa do teatro, mas porque o teatro permitiu que algo novo aflorasse, necessitando de acompanhamento para que haja convivência sadia com as novas reações humanas. Portanto, não será fugindo que o problema desaparecerá. Ele ficará encubado, como vulcão, até sua explosão, ai sim, danosa! O teatro, no fundo, é uma ótima oportunidade para conhecermos as pessoas.
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